Embora sejam hoje atividades distintas, a
Odontologia e a Medicina encontraram-se e apoiaram-se várias vezes
ao longo de suas histórias.
Nos últimos anos, várias pesquisas
científicas novamente comprovam a importância da colaboração
entre médicos e dentistas.
O exemplo clássico é a gastrite,
como lembra a dra. Sonia Harari, professora do Departamento de Odontologia Preventiva
da Universidade Federal do Rio de Janeiro: "Já há alguns
anos foi comprovado que, se não houver um bom controle da higiene oral,
a doença pode reincidir".
Com o avanço das pesquisas, sabe-se agora
que as mais de 300 espécies que habitam a flora bucal podem ter uma grande
influência para a saúde do organismo. Com isso, a doença
periodontal vem sendo relacionada com diversos distúrbios, além
da gastrite. O nascimento de bebês de baixo peso é um deles.
Durante cinco anos, o pesquisador norte-americano
Steve Offembacker e seu grupo estudaram os fatores de risco para esse problema
e acabaram constatando que as gestantes com doença periodontal tinham
bebês de baixo peso numa proporção 7,5 vezes maior do que
as gestantes que usavam drogas. A conclusão foi que o mecanismo inflamatório
produzido pelas toxinas liberadas pela flora subgengival provocaria a contração
placentária, afetando os bebês.
Como esses nascimentos representam um custo alto
(manutenção neonatal, permanência no hospital, medicamentos,
etc), o governo norte-americano decidiu investir nessa linha de pesquisa. "Percebeu-se,
dessa forma, a amplitude das questões relacionadas com as doenças
periodontais, que foram relacionadas a problemas socioeconômicos e também
aos fatores psicológicos", diz a dra. Sonia.
A relação de doenças periodontais
com doenças sistêmicas também está sendo estudada
atualmente. Um dos trabalhos mais importantes nessa área é o que
trata dos fenômenos cardiovasculares, afirmando que as bactérias
específicas da doença periodontal ajudariam na formação
dos ateromas. Alguns trabalhos mostram que as pessoas infartam mais pela manhã,
que é justamente o período do dia quando se faz mais a escovação
dos dentes.
Para quem tem doença cardíaca severa,
a bacteremia, ou seja, a ida de um grupo de bactérias para a corrente
sanguínea fisiológica, provocada pela escovação
dental - e inofensiva em indivíduos saudáveis - ajudaria no fechamento
final do ateroma. "Novamente, é claro que há outros fatores
relacionados, como estresse, vida sedentária e também o uso do
cigarro, um fator que provoca ainda a dissimulação da doença
periodontal, por provocar a vasoconstricção periférica",
lembra a dra. Sonia.
Assim como as doenças periodontais provocam
o agravamento das doenças sistêmicas, pode acontecer o contrário,
como se supõe ser o caso da diabetes. Trata-se de um círculo vicioso:
o diabético tem um hálito mais pesado, mais ácido, e problemas
de cicatrização. Se há um grupo bacteriano presente, ele
tem menor defesa.
Se esse grupo é mais agressivo, a capacidade
de defesa do diabético é menor e a inflamação agrava
mais ainda o problema da diabetes, aumentando a inflamação gengival
em um ciclo repetitivo. Por isso acredita-se que a doença periodontal
pode agravar e descompensar a diabetes. O que os pesquisadores querem saber
é se o tratamento da doença periodontal é capaz de controlar
a diabetes, ou se é com o controle da diabetes que se trata a doença
periodontal.
Outro distúrbio que vem sendo relacionado
com a saúde oral é a halitose. As microvilosidades da língua
que poderiam abrigar bactérias anaeróbicas, que são as
específicas da doença periodontal. Por isso preconiza-se hoje
cuidados com a higiene da língua para combater a halitose. No tratamento
da doença periodontal, quando não se faz a higiene da língua,
a doença pode recidivar porque as bactérias estão abrigadas
em seu dorso.
"Por tudo que se vem descobrindo, percebe-se
que a questão da doença periodontal é complexa. O mecanismo
da doença vem sendo muito estudado e com certeza, no futuro, novas relações
surgirão entre a saúde oral e a saúde do organismo",
diz a dra. Sonia.