Condicionamento Tecidual com Materiais Resilientes em Base de Prótese Total Auxiliar
Colaborador
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Monografia apresentada como parte dos requisitos para obtenção do grau de Bacharel de Odontologia às Faculdades Integradas CESCAGE.
Vanessa Renata Budnik Mello (acadêmica do CESCAGE)
vanessabudnik@pop.com.br
Leonardo P. Pellissar
leopp@globo.com
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo apresentar um caso clínico e fazer uma revisão bibliográfica sobre a utilização de materiais condicionadores teciduais resilientes para diminuição do impacto da base da prótese sobre a mucosa de revestimento. O condicionamento tecidual com materiais resilientes é realizado para recuperar tecidos injuriados por próteses antigas ou mal adaptadas; após cirurgias para remoção de hiperplasias; próteses totais imediatas; auxiliar a cicatrização durante a fase de implantes e moldagens funcionais. A normalização da condição dos tecidos sob a base da prótese é fundamental, pois se forem moldados nessa situação tendem a permanecerem alterados indefinidamente. No caso clínico foi realizada uma demonstração do uso de um material resiliente a base de silicone, Ufi Gel P (VOCO) que é um material autopolimerizável, realizado após extrações múltiplas dentárias sob a base de prótese total imediata. Conclui-se que os condicionadores teciduais permitem melhor distribuição das cargas sobre os tecidos de suporte, promovendo sua recuperação e restaurando as condições ideais para que se possa fazer uma moldagem.
UNITERMOS: condicionadores de tecidos; reembasadores resilientes; bases resilientes; reembasadores macios.
INTRODUÇÃO
Desde a antiguidade a falta de dentes era motivo de vergonha e rebaixamento social. Não existiam técnicas nem materiais que pudessem substituir a falta dos dentes. Com a chegada do Renascimento começaram a surgir inovações, até que em 1728 um dentista francês chamado Pierre Fauchard apresentou a solução para esses problemas confeccionando a primeira prótese e apesar de serem precárias, elas funcionavam. Em 1940 surgiu uma borracha natural macia chamada Vellum que foi utilizada como revestimento de próteses totais.
Com o passar dos tempos observou-se que na maioria das vezes as próteses confeccionadas, principalmente as inferiores, causavam desconforto e ferimentos. Isto se devia a microtraumatismos gerados pelas irregularidades da prótese, má higiene bucal, placa bacteriana, Candidose e diminuição do fluxo salivar.
Se as próteses forem moldadas numa condição inadequada podem permanecer ou piorar a situação bucal do paciente. Para que essas condições fossem solucionadas surgiram os condicionadores teciduais. Os condicionadores teciduais são materiais elásticos e macios indicados para várias situações em prótese.
Eles proporcionam absorção de parte da energia produzida pelo impacto mastigatório, evitando assim injúrias nos tecidos de suporte. São encontrados no mercado com duas composições básicas: materiais à base de resina acrílica e de silicone.
PROPOSIÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo apresentar um caso clínico e fazer uma revisão bibliográfica sobre a utilização de materiais condicionadores teciduais resilientes para diminuição do impacto da base da prótese sobre a mucosa de revestimento.
REVISÃO DE LITERATURA
McLean; Wilson; Brown (1989) escreveram sobre os materiais denominados soft lining ou resilientes, que tem a função de absorver a energia produzida pela prótese que seria destinada aos tecidos de suporte do paciente.
Outros autores, Grant; Health; McCord (1998), falaram sobre forradores resilientes moles que servem para absorver a energia da mastigação e distribuí-la sobre os tecidos de suporte. Esses materiais podem ser à base de silicones (mais moles) ou de acrílico. Podem ser usados sobre osso cortical, mas não possuem grande eficácia em áreas de espículas sem cortical e nem quando o feixe neuromuscular mentoniano está superficializado. Possuem algumas desvantagens porque tendem a raspar a base da prótese, são de difícil ajuste, porosos, acumulam bactérias, se deterioram em 9-18 meses, devem ter no mínimo 3mm de espessura, deformam a mucosa devido à fricção o que também os contra-indica em pacientes com grande atrofia de mucosa ou pacientes com xerostomia.
Koran III e Lang (1981) relataram que condicionadores de tecidos são utilizados no tratamento de mucosa irritada, forramento temporário de próteses imediatas e em cirurgia bucal para a estabilização da prótese e também em moldagens funcionais. Possuem as propriedades de: dureza, perda de peso, precisão dimensional, deformação à compressão e escoamento.
O autor Eduardo (1997) concluiu que a técnica de reembasamento indireta apresentou um resultado clínico superior à técnica direta apesar do maior custo e o paciente ficar sem a prótese. Apresentou bom acabamento, estabilidade dimensional e durabilidade. E os autores Zavanelli; Mesquita; Zavanelli (2002) concluíram que a técnica direta tem grande praticidade e simplicidade de execução, mas a longevidade do reembasamento depende da correta manipulação do material, suas características intrínsecas, aplicação do selante, retorno do paciente, acompanhamento e higienização da prótese pelo paciente.
MATERIAIS E MÉTODOS E RELATO DE CASO CLÍNICO
Paciente M.E., 51 anos, gênero feminino, procurou a clínica do CESCAGE para fazer uma avaliação clínica dos dentes da arcada superior. Após criterioso exame clínico (Figura 1) e exame radiográfico (Figura 2) constatou-se a necessidade da extração dos dentes remanescentes da arcada superior e a confecção de uma prótese total imediata.
Figura 1: caso inicial

Figura 2 : análise da radiografia panorâmica
Após moldagem funcional e registros intermaxilares, a prótese imediata superior foi confeccionada em laboratório a partir dos modelos funcionais (Figura 3). As exodontias dos dentes remanescentes foram realizadas (Figura 4).

Figura 3: modelo funcional em gesso
Figura 4 : exodontia dos dentes da arcada superior
Um material resiliente para reembasamento de prótese foi utilizado logo após as extrações múltiplas da arcada superior. Para esse fim, foi utilizado o Ufi Gel P (VOCO) (Figura 5) que é um material autopolimerizável, a base de silicone.
Figura 5: material resiliente Ufi Gel P (VOCO)
Figura 6 : limpeza da prótese com escova dental

Figura 7 : desengorduração da prótese com isopropanol
Aplicou-se o líquido adesivo (Figura 8) que acompanha o produto de maneira uniforme para obtenção de uma boa união, entre a prótese e o material.
Figura 8 : aplicação do adesivo na base da prótese
Mistura-se a pasta base e a pasta catalizadora em uma proporção de 1:1 (Figura9).
Figura 9 : manipulação da pasta base com a pasta catalizadora
Aplica-se a produto uniformemente em toda base da prótese (Figura 10). Após um minuto, a prótese é levada à do paciente o qual permaneceu em oclusão por um minuto.
Figura 10 : aplicação do produto na base da prótese
Em seguida o paciente deverá fazer movimentos de mastigação e deglutição (Figura 11).
Figura 11 : paciente realizando movimentos de mastigação e deglutição
Após cerca de seis minutos a prótese é removida da boca do paciente e o excesso de material é removido com a ajuda de uma tesoura afiada e um estilete (Figura 12).
Figura 12 : remoção do excesso do material com tesoura
O acabamento é realizado com disco próprio (Figura 13) e para o selamento e alisamento das superfícies tratadas foi utilizado o glazing que acompanha o produto (Figura 14).
Figura 13 : realização do polimento com disco próprio do kit do produto

Figura 14: glazing que acompanha o produto
Após sete dias a paciente retornou para remoção da sutura, e após 21 dias de acompanhamento a mucosa apresentava-se com boa cicatrização e tecidos de suporte saudáveis (Figura 15).
Figura 15 : mucosa com tecidos saudáveis para moldagem após 21 dias da utilização do produto
DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Segundo Eduardo (1997), quando as forças mastigatórias são aplicadas sobre as próteses, estas são direcionadas a fibromucosa de revestimento que, por sua vez, nem sempre é capaz de absorver as tensões resultantes devido a vários fatores como: má adaptação da prótese às estruturas de suporte, ajuste oclusal inadequado, diferentes graus de resiliência da fibromucosa de um local para outro ou até mesmo, dificuldades anatômicas como a fibromucosa do mucoperiósteo e, assim, resultando em lesões e desconforto ao paciente.
Os materiais de revestimento resilientes formam um grupo de materiais elásticos que preenchem total ou parcialmente a base da prótese, com a finalidade de diminuir o impacto das forças mastigatórias sobre a mucosa de revestimento (TELLES; HOLLWEG; CASTELUCCI, 2004).
Para Pinto et al. (2002) existem dois tipos de materiais resilientes:
a) materiais à base de resina acrílica compostos por pó geralmente constituído de pérolas de poli (etilmetacrilato) ou polimetacrilato butílico, e o líquido consiste em um éster aromático e plasticizante (álcool ethil) responsável por manter a maciez deste material.
b) materiais à base de silicone que são polímeros do dimetilsiloxano associados a agentes de união e um catalisador, como o peróxido de benzoíla. As bases resilientes à base de silicone necessitam de um adesivo em forma de polímero de silicone em solvente volátil com a finalidade de se aderir à base de resina acrílica da prótese.
Também existem outros materiais que atualmente não são mais utilizados por apresentarem grande expansão e absorção de água, exemplos: borrachas naturais, poli (cloreto vinílico) plastificado, poli (acetato vinílico) plastificado e poliacrilatos hidrofílicos (Hydron).?
Os materiais resilientes são classificados como de uso prolongado (meses) ou de tratamento (dias). Os de uso prolongado podem ser processados por aquecimento na temperatura ambiente. De acordo com a sua formulação, esses materiais incluem silicones borrachóides como polimerização térmica, polimerização em temperatura ambiente e polifospazina. Os produtos de polimerização em temperatura ambiente são aplicados no consultório enquanto que os de polimerização térmica e os silicones são processados em laboratórios. Não devem ser processados na boca, pois liberam ácido acético durante o processo.
Já os materiais de tratamento são aplicados no consultório e são substituídos freqüentemente ou antes de completarem três dias de uso, esses materiais fluem sob carga estática, mas são elásticos sob cargas intermitentes produzidas durante a mastigação. A medida que os tecidos irritados e inflamados cicatrizam, o material flui e segue o contorno dos tecidos (CRAIG; POWERS; WATAHA, 2002).
Com base no que foi exposto neste trabalho conclui-se que:
• nenhum dos materiais forradores resilientes disponíveis no mercado atualmente apresentam todas as propriedades necessárias para a perfeita união à base da prótese;
• ainda existem muitas controvérsias quanto ao tempo de uso dos materiais, alguns autores defendem a idéia de que não existem materiais permanentes pois necessitam de reembasamentos periódicos;
• os materiais a base de resina sofrem um processo de lixiviação e devem permanecer na cavidade bucal por um menor período de tempo;
• para que haja melhor desempenho do material devem ser seguidos as indicações do fabricante e utilizando métodos (selante) para aumento da durabilidade;
• no caso clínico exposto o material à base de silicone Ufi Gel (Voco) apresentou um bom desempenho na proteção e cicatrização da ferida cirúrgica;
• permite melhor distribuição das cargas sobre os tecidos de suporte, promovendo sua recuperação e restaurando as condições ideais para que se possa fazer uma moldagem.
REFERÊNCIAS
CRAIG, R.G.; POWERS, J.M.; WATAHA, J.C. Materiais dentários: propriedades e manipulação. 7.ed. São Paulo: Santos, 2002, p.271.
EDUARDO, J.V. de P. Materiais macios usados em base de prótese total para reembasamento direto e indireto. Revista da APCD, v.51, n.6, p.531-533, nov./dez. 1997.
GRANT, A.A.; HEALTH, J.R.; MCCORD, J.F. Prótese odontológica completa: problemas, diagnóstico e tratamento. 2.ed. Rio de Janeiro: Medsi, 1998, p.117-118.
KORAN III, A.; LANG, B.R. Condicionadores de tecidos e materiais para forramento de dentaduras. In: Materiais dentários. 1.ed. Rio de Janeiro: Interamericana, 1981, p. 97-105.
MCLEAN, J.; WILSON, H.J.; BROWN, D. Materiais dentários e suas aplicações. 1.ed. São Paulo: Santos, 1989, p.101-109.
PINTO, J.R.R.;MATHIAS, A.C.; EDUARDO, J.V. de P.; SINHORETI, M.A.C.; MESQUITA, M.F. Estudo dos materiais reembasadores resilientes em prótese total. Revista da APCD, v.56, n.2, p.131-134, mar./abr. 2002.
TELLES, D.; HOLLWEG, H.; CASTELUCCI, L. Prótese total: convencional e sobre implantes. 2.ed. São Paulo: Santos, 2004, p.35-55.
ZAVANELLI, R.A.; MESQUITA, M.F.; ZAVANELLI, A.C. Reembasamento direto com material resiliente: considerações e relato de caso clínico. PCL, Curitiba, v.4, n.22, p. 503-506, nov./dez. 2002.
Data de Publicação do Artigo:20 de Dezembro de 2006
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