Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro(*)
Mestre e Doutor pela F. O U.S.P.
Coordenador Curso Especialização Odontogeriatria Abeno-SP
Membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia- SBGG
Dr. Leonardo Marchini
Mestre e Doutor pela UNESP- SJC
Professor Curso Especialização Odontogeriatria Abeno-SP
Professor Contratado na UNITAU e UNIVAP
Dr. Ruy Fonseca Brunetti(**)
Doutor pela Faculdade de Medicina da U.S.P.
Professor Emérito pela UNESP- SJC
Consultor em Odontogeriatria
Dr. Carlo Marchesini Pereira
Professor Voluntário Prótese Dentária UNIP
Professor Voluntário Cirurgia UNIP-Bacelar
Responsável Odontologia Fundação Cruz Azul
Introdução
A Odontologia Geriátrica tem se desenvolvido muito nos últimos
anos no Brasil, apesar de já estar bem delineada nos EUA desde meados
do século passado e mesmo considerando a escassa literatura nacional
— mas não tão diminuta no exterior — cria uma enorme
possibilidade de trabalho para os cirurgiões - dentistas e por decorrência
para nossos colegas Técnicos em Prótese Dentária, por
isto a troca de experiências é vital para ambos os profissionais
(BRUNETTI, MONTENEGRO(1999)5).
Os idosos fazem parte de uma camada da população que está
crescendo vertiginosamente em todo o mundo e espera-se que seja o grupo mais
numeroso por volta de 2020 - 2040, salientam BRUNETTI e colab.(1998)3 o que
está nos obrigando a ver o problema com atenção, já
que o saneamento básico, vacinas, medicamentos modernos, prevenção
de doenças em diversos níveis e o menor número de filhos
por casal (tendência mundial) contribuem para dar sustentação
às previsões do IBGE (1995)6 e da ONU (1998)14.
Conforme MONTENEGRO,BRUNETTI(1999)13 e MARCHINI e colab. (1999)9 são
indivíduos com características particulares, seja por terem
tido "derrame"; por precisarem que parentes os tragam aos consultórios;
que só consigam ficar pouco tempo em nossas cadeiras; que por problemas
cardíacos só podem ser atendidos pela manhã; que precisem
de soluções de grande complexidade em poucas sessões
clínicas; que não toleram o volume de moldeiras e o escorrimento
dos materiais de moldagem por sua boca; que por medicamentos diversos têm
um fluxo salivar diminuído; cujos problemas com coagulação
impedem as cirurgias gengivais para preparos/ moldes mais nítidos e
também com o menor conteúdo mineral do esmalte pode impedir
parcialmente a eficiência dos ataques ácidos, são apenas
algumas das dificuldades clínicas encontradas e de ampla exemplificação
desde os trabalhos pioneiros de KAMEN e ETTINGER3, nas décadas de 60
e 70 do século passado BRUNETTI e colab. (2000)4.
Estas condições clínicas dos pacientes nos obrigam
a mudar o modo de trabalho, sem contar os casos quando somos obrigados a atender
pacientes em suas casas ou centro geriátricos, como afirmam MARCHINI
e colab. (1999)9, onde até as condições de trabalho fogem
totalmente da normalidade dos gabinetes dentários, com implicações
diretas para os trabalhos recebidos pelos técnicos de prótese
dentária.
Dado ao grande número de variações clínicas passíveis
de ocorrer em Prótese Dentária, destacaremos algumas que classificamos
como diferenciais no atendimento do idoso.
Discussão de situações clínicas diversas
A figura l tenta mostrar (de uma forma "exagerada") a importância
da higienizaçao — por diversos meios de higiene interdental,
para um mesmo caso. O que deve ficar desta imagem é que os trabalhos
devem ter suas ameias preservadas, e para tanto os técnicos de prótese
devem possuir exemplares de escovas interdentais (Oral-B,J&J, Kolynos,
Bitufo, Polidental, Higipratic, Kremer) em seus laboratórios ou —
nos casos mais extremos de necessidade estética ou de proximidade das
raízes — ao menos condições de uso de passadores
de fio dental (Sanifil, Butler). Segundo LASCALA; MOUSSALLI; BRUNETTI (1989)8
nunca a estética pode suplantar a função: para ter longevidade
na boca, o trabalho tem que possuir condições ideais de limpeza
diária.
Com o advento da implantodontia ósseointegrada de sucesso previsível
e inconteste (desde que corretamente indicada e realizada) (TODESCAN(1996)16,
PINTO e. colab. (2000)15 houve uma tendência de desprezo pelo uso das
P.P.Rs. para os casos em que eram comumente indicadas, associadas (ou não)
a encaixes, PPFixas, etc.... Felizmente a Odontogeriatria traz "de volta"
a "velha" P.P.R. , pois são inúmeros os casos onde
o paciente — apesar de ter condições financeiras para
o uso de implantes, não os pode receber por motivos médicos
(cirurgia(s) contra-indicada(s), de locomoção (número
de sessões/ prazo até próteses definitivas), de higienização
(pela impossibilidade da boa higiene na região perimplantar —
BISSETTO (2000)2), de qualidade óssea (por motivos locais ou sistemicos),
e para estes pacientes, portanto, a P.P.R. é o único meio de
reabilitação possível.
A figura 2 mostra a sela metálica, para um caso superior, arco no
qual MONTENEGRO (1989)12 relatou menor reabsorção óssea
e também age como um excelente meio de suporte complementar, especialmente
nos casos de poucos dentes remanescentes e somado- neste caso clínico
— a um recobrimento total do palato — ajuda muito na preservação
dos suportes. Uma trajetória de inserção bem balanceada
para ambas as estruturas, como a, por exemplo, dada pelo método de
Applegate (KLIEMANN; OLIVEIRA, 1999)7, ajuda ao paciente na inserção
e remoção da prótese.
O aproveitamento da elasticidade dos grampos longos — indicados para
dar menos carga aos dentes suportes — é corretamente aplicada
neste caso (figura 3),onde a resina da sela está ALIVIADA do corpo
do grampo, podendo permitir que ocorra a função esperada do
mesmo 16.
Outro caso (Figura 4) onde os dois sistemas de suporte — mucoso e
dentário — são aproveitados ao seu máximo: o uso
de barra bipartida, que é de difícil confecção
pelo TPD iniciante, mas que em mãos habilidosas são um excelente
recurso clínico. As críticas deste meio de distribuição
de cargas, muito comuns no passado, se mostraram totalmente incoonsistentes
com o correto funcionamento de inúmeros casos ao longo dos anos.
Na recuperação da Dimensão Vertical perdida, as P.P.Rs.
podem ser um excelente meio de tratamento, pois seria inadequado — face
às inúmeras sessões clínicas necessárias
— aumentar a DVO com próteses fixas, especialmente nos pacientes
idosos. Perceba que a armação de Cromo-Cobalto realiza esta
função com segurança e a um custo (financeiro, de desgaste
de estrutura dental
íntegra, de sessões clínicas) muito baixo (figuras 5
e 6).
As sobredentaduras que, segundo BASKER e colab. (1991)1, são um método
bastante eficaz de preservar o volume ósseo ao redor de raízes
remanescentes, e de reabilitar aqueles que não as podem receber como
implantes e nas figuras 7 e 8 observamos um caso, cujas raízes com
encaixes Ceka permitiram uma prótese muito mais funcional e confortável
e que deu longevidade desta prótese total até o óbito
da paciente (com controles e reembasamentos — desde que necessários
— constantes).
A figura 9 mostra um tipo de conceito que deve fazer parte dos planejamentos
mais extensos em pacientes idosos: a separação máxima
dos elementos, para permitir que no caso de cáries de raiz —
mais comuns na 3a idade pelo menor fluxo salivar (MARCHINI e colab.(1999)9)
— possa ser menor o número de sessões para resolução
dos problemas porventura apresentados.
O uso de próteses com coroas metaloplásticas (veneer), mesmo
na implantodontia, é uma medida extremamente válida, pois a
manutenção da oclusão, o evitar dos consertos em porcelana,
o menor dano aos antagônicos são vantagens além do custo
menor e menos uma sessão clínica (figura 10 - cedida pela 3i
Brasil).
Conclusão
Existe espaço para qualquer possibilidade reabilitadora disponível
na atualidade para os casos de pacientes idosos e cabe ao Cirurgião
Dentista e ao Técnico em Prótese Dentária discutirem
muito os casos antes de realizá-los, como sempre foi mister em nossas
Profissões.
Condições de saúde, da técnica versus as estruturas
remanescentes, de número de consultas, de custos pessoais e financeiros
que devem ser bem ponderadas antes de qualquer terapia com indivíduos
de 3a idade, cabendo uma leitura mais aprofundada sobre o tema, tanto na literatura
disponível como na Internet (como neste Site, por exemplo).
Referências Bibliográficas
1. BASKER R.M.; HARRISON, A.; RALPH J.P.Sobredentaduras (overdentures) na
prática geral, Ed. Santos, São Paulo, p. 35 - 54, 1991.
2. BISSETTO, E.M.P. Etiopatogenia das doenças perimplantares. Contribuição
ao estudo. Dissertação Mestrado, 110 p. Universidade Paulista,
2000.
3. BRUNETTI, R.R; MONTENEGRO, F.L.B.;MANETTA, C.E. Odontologia geriátrica
no Brasil: uma realidade para o novo século, Atual. Ger., v. 3, n.
15, p. 26 -
29, Mar. 1998.
4. BRUNETTI, R.R; MONTENEGRO, F.L.B.Odontogeriatria: prepare-se para o novo
milénio, in: Atualização na clínica odontológica.
Artes Méd., São Paulo, v. l, p.467 - 488,2000.
5. BRUNETTI, R.R; MONTENEGRO, F.L.B.Odontogeriatria: uma promissora atividade
neste inicio de século, Interativo, v. 5, n. 36, p. 4 - 5, Jul. / Ago.
1999.
6. IBGE, Projeções preliminares de população
1980- 2020, Departamento de população e indicadores sociais,Mar.
1995.
7. KLIEMANN C.; OLIVEIRA W. Manual de Prótese Parcial Removível,
Ed. Santos, São Paulo, p. 29 -44, 1999.
8. LASCALA, N.T; MOUSSALLI N.; BRUNETTI,R.F., Prótese Dentária
e Periodontia, Artes Méd., São Paulo, p. 851 - 868, 1989.
9. MARCHINI L.; CUNHA, V.P.R;GIORDANO, C.E.; SANTOS, J.F.F. Odontologia geriátrica:
um panorama geral.FOPLAC Rev., v. l, n. 2, p. Ill - 116,1999.
10. MARCHINI L.; BRUNETTI,R.F.; MONTENEGRO, F.L.B. Acompanhamento odontológico
em centros geriátricos. Atual. Ger., v. 4, n. 24, p. 34 - 36, Ago.1999.
11. MARCHINI, L. Tratamento protético para pacientes idosos: considera-
ções clínicas, Rev. Brás. Prót. Clín.
Lab., v.l, n. 3, p. 265-270, 1999.
12. MONTENEGRO, F.L.B., Revisão e análise das técnicas
utilizadas na avaliação da reabsorção óssea
em casos de próteses parciais removíveis. São Paulo,
1989, 52 pág., Dissertação Mestrado, Faculdade de Odontologia
da Universidade de São Paulo.
13. MONTENEGRO, F.L.B;BRUNETTI, R.F. Prótese dentária na 3a
idade: aspectos relevantes a serem considerados, Jornada Odontogeriatria APCD,
p. 80-87,1999
14. ONU - Population Fund. - The state of world population, Report 1998.
15. PINTOA.V.S.;RAMALHOS.A.;PEREIRA, L.A.V. Fatores de risco, complicações
e fracassos com implantes ósseointegrados, in: Atualização
na Clínica
Odontológica, v. l, p. 131-217, 2000.
16. TODESCAN, R.; SILVA, E.E.;SILVA, O. Atlas de Prótese Parcial Removível,
Ed. Santos, São Paulo, p. 180 - 208,1996.
(*),(**)- Autores do Livro Pioneiro: "Odontogeriatria:Noções
de Interesse Clínico",Editora Artes Médicas,2002,500 pgs.
(Informações:0800 12 14 16)