1. Introdução
A reação inflamatória causada pela doença periodontal
vem sendo associada ao aumento do risco de se desenvolver outras doenças
inflamatórias crônicas, como artrite reumatóide, gromerulonefrite,
aterosclerose e doenças obstrutivas pulmonares crônicas (Scannapienco
et al. (1998). A doença periodontal também tem sido associada
ao nascimento prematuro de crianças de baixo peso (Offenbacher et al.
1995).
A definição internacional para nascimento de crianças
com baixo peso, adotada pela 29ª Assembléia Mundial de Saúde
em 1976, é um peso de nascimento menor do que 2500g (Andrews et al. 1995).
O nascimento abaixo do peso pode ser o resultado tanto de um curto período
gestacional, quanto de um retardo no crescimento intrauterino. A gestação
normal para humanos é de 40 semanas. São considerados prematuros,
períodos gestacionais abaixo de 37 semanas (World Health Organization
1975). Geralmente, a maioria dos nascimentos prematuros são também
recém-natos de baixo peso. Didaticamente, é importante a distinção
entre prematuros de baixo peso e retardamento no crescimento intrauterino, porém
uma definição padrão para retardo intrauterino é
difícil de se achar (Willians & Offenbacher 2000). A definição
atualmente utilizada para considerar um infanto de baixo peso, mas não
prematuro, seria um peso de nascimento menor do que 2500g com um período
gestacional igual ou maior do que 37 semanas.
O nascimento prematuro é usualmente o resultado de uma das 4 abrangentes
áreas do diagnóstico em obstetrícia: 1) trabalho de parto
prematuro, 2) ruptura prematura da membrana, 3) complicações maternas
e 4) complicações fetais (Main 1988).
Entre estes 4 fatores, o trabalho de parto prematuro e a ruptura prematura
da membrana podem ser causados pela reação inflamatória
proveniente de infecções. Supostamente entre elas a doença
periodontal pode ser considerada.
Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar os mecanismos de indução
que levam ao parto prematuro de crianças de baixo peso, buscando uma
correlação com a doença periodontal .
2. Revisão da literatura
2.1 Distribuição Mundial da Prevalência de Crianças
de Baixo Peso
A Ásia apresenta a maior prevalência de crianças de baixo
peso no mundo, atingindo 15% dos infantos. A média de peso do recém-nato
é de 2900g. Em 2º lugar, encontram-se a África e América
do Sul, onde a média de baixo peso é aproximadamente 11% (média
de peso em torno de 3000g). A Austrália e América do Norte apresentam
prevalências baixas, entre 6 e 7%, com uma média de peso do infanto
de 3200g. A Europa apresenta uma grande variação para o nascimento
de crianças de baixo peso (4 - 12%, com média de peso de 3200g).
Os custos mundiais para o tratamento deste problema são enormes e o entendimento
dos fatores pré-disponentes e das causas do nascimento prematuro de crianças
de baixo peso são importantes alvos nos programas de controle de saúde
(para revisão, ler Willians et al. 2001).
2.2 Fatores de Risco na Indução de Parto Prematuro
O prematuro de baixo peso é o resultado final de alterações
num sistema contínuo e estável. A determinação dos
fatores envolvidos no nascimento de crianças de baixo peso é de
difícil entendimento pela complexidade da natureza sistêmica de
desenvolvimento fetal e das repentinas iniciações do trabalho
de parto. São considerados como de risco os seguintes fatores: genético,
demográfico e psicossocial, obstétricos, nutrição,
infecção, exposição tóxica, e cuidado pré-natal
(Willians et al. 2001). No presente estudo foi analisado apenas o efeito da
infecção como fator de risco.
2.3 Mecanismos Envolvidos no Trabalho de Parto
2.3.1 Fisiologia do Trabalho de Parto
O parto é caracterizado por contrações uterinas coordenadas,
que levam a uma dilatação do colo do útero e finalmente,
a expulsão do feto. Alguns dos mecanismos envolvidos no trabalho de parto
estão resumidos na Figura 1.
Em termos de parto normal, a rotura da membrana ocorrerá depois da
iniciação das contrações. Os mecanismos envolvidos
na iniciação do trabalho de parto em mulheres não são
totalmente conhecidos (Schellenberg & Liggins 1994). No entanto, prostaglandinas
parecem exercer um papel inicial neste processo, sendo que a prostaglandina
E2 pode ser usada para induzir o parto em humanos.
Os eventos iniciais identificados no trabalho de parto são o aumento
da biodisponibilidade da prostaglandina F2 a, e um aumento na concentração
de receptores para o hormônio ocitocina (Chard 1991). O último
parece ser estimulado pelo aumento dos níveis de prostanoídes,
possivelmente de prostaglandina E2. O precursor obrigatório para a síntese
de prostanoíde é o ácido araquidônico livre (Schellenberg
& Liggins, 1994). A concentração deste ácido aumenta
no fluído amniótico durante o trabalho de parto espontâneo.
Ele também induz o aborto ou o trabalho de parto, quando injetado no
fluído amniótico. As membranas fetais contém fosfolipase
A2, que podem separar o ácido araquidônico dos fosfolipídios.
Tem sido sugerido que, fontes bacterianas de fosfolipase A2 podem ser importantes
na indução do parto prematuro (Bejar et al. 1981).
A ocitocina é um dos agentes mais potentes para a estimulação
da contração uterina (Mitchell & Chibbar 1995). Tanto o aumento
de receptores para ocitocina durante o parto quanto o alargamento da cérvix
e do miométrio, parecem ser iniciados por um refluxo neurogênico
direcionado para a neurohipófise da glândula pituitária
agindo como um feedback positivo para a produção de ocitocina
(Chard 1994).
Tem sido postulado que a taxa de estrogênio - progesterona, que aumenta
gradativamenteaté o final da gravidez, é o resultado de uma atividade
do miométrio, demonstrando uma grande contratilidade; porém a
progesterona é inibida durante o curso da gravidez, inibindo o processo
de contração uterina (Romero & Mazor, 1988).
2.3.2 Mecanismos Envolvidos no Parto Prematuro
Cinco pontos tem sido mais utilizados para ajudar na discussão sobre
os possíveis mecanismos envolvidos com o parto pretermo. Eles são:
(1) os processos fisiológicos normais que acontecem cedo demais; (2)
infecção, (3) inflamação; (4) hemorragia; (5) isquemia
placentária e stress (Lockwood 1995). Os últimos quatro são
usados para ilustrar o crescimento de evidências da existência de
métodos alternativos de ativação deste mecanismo, que levam
para caminhos comuns na iniciação do parto (Romero & Mazor
1988). Como o objetivo desta revisão foi de avaliar a relação
patogênica da periodontite com o nascimento de prematuros com baixo peso,
apenas os mecanismos envolvidos na infecção e na inflamação
foram analisados.

Figura 1- Esquema simplificado dos possíveis mecanismos envolvidos no trabalho de parto prematuro e ruptura prematura de membrana
2.3.2.1 Inflamação e Infecção
Existem evidências ligando a infecção maternal com o parto
prematuro (Romero & Mazor 1988, Andrews et al. 1995). A colonização
vaginal por espécies de bacteroides tem sido associada com um aumento
de 60% do risco de parto prematuro (Minkoff et al. 1984). Infecções
no trato genito-urinário tem sido associadas com complicações
na gravidez durante muitos anos. Infecções subclínicas
também tem sido demonstradas estarem ligadas ao nascimento precoce (Gibbs
et al. 1992). O uso de metronidazol e eritromicina para tratar de mulheres com
vaginite bacteriana tem demonstrado reduzir as taxas de nascimento prematuro
(John et al. 1995). Por outro lado, McDonald et al. (1997) não demonstraram
uma redução na taxa de nascimento prematuro após o uso
de antibióticos, exceto em mulheres com história prévia
de parto prematuro.
Pesquisas envolvendo uma desordem específica da gravidez chamada pré-eclâmpsia,
têm demonstrado que a gravidez normal, por si só, está associada
a alterações inflamatórias bastante similares às
encontradas em septicemia, onde um aumento dos níveis de TNFa e interleuquina-6
pode ser observado (Sacks et al. 1998).
O conhecimento atual dos eventos que envolvem o trabalho de parto normal e
dos mecanismos que ligam fatores de risco conhecidos para nascimento precoce
de crianças de baixo peso, sugerem fortemente que as prostaglandinas
e as citoquinas pró-inflamatórias possuem um papel importante
na iniciação do processo (Williams et al. 2000). Devido a relação
próxima entre inflamação e infecção, parece
que alterações nos níveis de mediadores inflamatórios
como resultado de uma resposta do hospedeiro contra agentes infecciosos, pode
representar o mecanismo-chave através do qual a infecção
é associada ao parto prematuro de crianças de baixo peso. Assim,
um aumento dos níveis de citoquinas derivadas da mãe ou do feto,
como por exemplo, TNF-a, pode levar a um aumento da expressão da IL-6,
resultando na produção de prostanoídes. Como via alternativa,
tanto os neutrófilos, quanto vários organismos gram negativos
produzem a enzima fosfolipase A2, que hidroliza o ácido araquidônico,
que por sua vez, regula a síntese de prostanoídes (para revisão,
ler Willians et al. 2001). O TNF-a e a IL-6 têm sido demonstrados, in
vitro, terem a capacidade de atravessar a membrana fetal humana (Kent et al.
1994). Apesar de ser difícil extrapolar estes resultados para situações
in vivo, é plausível que, infecções do trato genito-urinário
possam influenciar a imunidade feto placentária.
Um mecanismo alternativo poderia envolver um desafio mais direto da bactéria
periodontal e/ou de seus produtos. Uma disseminação pelo líquido
amniótico pode ser causada tanto pelo sistema sangüíneo,
através de bacteremias transitórias ou pelo fato da bactéria
ser introduzida na vagina pela prática do sexo orogenital, e então,
entrar no fluído genital. Algumas evidências para este mecanismo
mais direto são provenientes do estudo de Hill (1993), no qual bactérias
foram cultivadas do líquido amniótico de mulheres com membranas
intactas. Uma alta proporção de fluídos eram positivos
para Fusobacterium nucleatum, que é uma bactéria anaeróbia
gram negativa, freqüentemente encontrada em infeção periodontal,
porém, normalmente ausente na microflora vaginal (Hill 1993).
3. Doença Periodontal
A possibilidade de que a doença periodontal possa ser importante com
relação ao nascimento precoce tem origem nos estudos de Offeenbacher
et al. (1995). A condição de aumento da inflamação
gengival durante a gravidez é conhecido há muitos anos (Williams
et al. 2000). Existem sugestões de que este fato esteja relacionado a
uma imunossupressão no segundo trimestre de gravidez (Lopatin et al.
1980). O periodonto infiltrado também pode ser considerado como reservatório
tanto para produtos microbianos quanto para mediadores inflamatórios.
Níveis locais de prostaglandinas E2 e níveis locais e sistêmicos
de TNFa, tem sido demonstrados estarem aumentados na periodontite (Moss et al.
1995). Experimentos em animais nos quais hamsters grávidas foram infectadas
com Porphyromonas gengivalis, uma bactéria gram negativa freqüentemente
associada a periodontite, tem demonstrado uma associação significante
entre o aumento dos níveis de prostaglandinas E2 e TNFa com o retardo
de crescimento fetal. Tais resultados sugerem que a infecção por
Porphyromonas gingivalis pode afetar a gravidez em humanos (Collins et
al. 1994).
Offenbacher et al. (1995) analisaram a possibilidade da infecção
periodontal funcionar como fator de risco para o nascimento prematuro de criança
de baixo peso. 124 mães grávidas, ou no período pós
parto, foram avaliadas quanto à prevalência de infecção
periodontal. Casos de crianças prematuras de baixo peso foram definidos
como crianças com menos de 2500g e período gestacional abaixo
de 37 semanas. As crianças foram subdivididas em trabalho de parto prematuro
ou ruptura prematura da membrana. Os dados indicaram que a doença periodontal
representa um fator de risco previamente não reconhecido e clinicamente
significante para nascimento de crianças prematuras de baixo peso como
conseqüência tanto do trabalho de parto prematuro quanto de uma ruptura
prematura da membrana.
Dasanayake (1998) analisou a relação de saúde periodontal
em mulheres grávidas como um possível fator de risco para crianças
de baixo peso. Cinqüenta e cinco mulheres grávidas foram comparadas
com 55 mulheres não grávidas. Foi avaliada a hipótese de
que uma higiene oral deficiente em mulheres grávidas poderia ser um fator
de risco para o nascimento prematuro de criança de baixo peso. O estudo
concluiu que uma saúde periodontal deficiente da mãe é
um fator de risco potencial e independente para o nascimento prematuro de criança
de baixo peso.
4. Discussão
A hipótese de que a doença periodontal poderia funcionar como
um possível indutor ao parto prematuro de crianças de baixo peso
foi apresentada nesta revisão. Entre as possíveis vias de indução,
o processo de infecção parece ter uma estreita ligação
com as alterações causadas pela doença periodontal (Brocklehurst
1999).
A presença de vários fatores de risco, interagindo no desencadeamento
no processo de indução de parto, é um fato preponderante.
A placa bacteriana e a deficiência na higiene oral funcionam como agentes
diretos para a instalação e propagação dos problemas
periodontais, sendo a infecção o fator de risco que mais justifica
a inter-relação entre trabalho de parto prematuro e a periodontite
(Willians et al. 2000).
No mecanismo de trabalho prematuro, existe uma infecção previamente
instalada, que por ação de endotoxinas, bactérias orais
ou outros fatores microbiológicos desencadeiam um processo inflamatório,
processo este também presente na periodontite. Uma vez instalada, a inflamação
promoverá o aumento de citoquinas pró-inflamatórias, assim
como a ativação de células como macrófagos e neutrófilos
(Lopatin et al. 1980). Estes elementos citados são também caracterizados
nos processos das periodontopatias. Durante o desenvolvimento desta inflamação
podem ocorrer interferências de fenômenos como os da hemorragia
ou isquemia placentária. Logo, a ativação destas células
irá desencadear a produção de enzimas também presentes
na periodontite, que juntamente com a ação do TNFa, levará
a produção de prostanóide (Kent et al. 1994). Em níveis
elevados, os prostanóides podem desenvolver uma contração
uterina, caracterizando um trabalho de parto prematuro; ou sob a ação
de proteases poderá levar a uma ruptura prematura da membrana (Bejar
et al. 1981). Já foi demonstrado que o aumento nos níveis de prostaglandina,
principalmente a prostaglandina E2, está descrito na evolução
da periodontite, onde a mesma eleva o processo de reabsorção óssea.
Assim, a semelhança entre os processos da periodontite e infecção
são interessantes e a presença da prostaglandina para tais processos
é extremamente importante (Williams & Offembacher 2000).
Sendo assim, podemos concluir que a infecção é um fator
de risco importante. Dessa forma, a doença periodontal pode ser incluída
como um fator de risco de extremo valor para o mecanismo de indução
do parto prematuro em crianças de baixo peso. A presença de células
inflamatórias durante a inflamação periodontal, elevando
a concentração de prostaglandina, e enzimas proteolíticas
são fundamentais para o início do trabalho de parto prematuro.
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