Classificação atual das doenças periodontais Marcos Vinícius Moreira de Castro ( mvcastro@zaz.com.br ) - Especialista em PeriodontiaCesário Antonio Duarte ( cesarioduarte@brfree.com.br ) - Livre-Docente pela Faculdade de Odontologia da U.S.P.
Procurando adaptar à nossa linguagem, a interpretação da classificação das doenças periodontais proposta pela AAP, apresentamos um paralelo entre a antiga (1989) e a atual (1999) visando um melhor entendimento das modificações feitas.
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Introdução
A etiologia, a patogênese
e o tratamento de doenças de maneira ordenada só são possíveis
com uma sistemática de classificação corretamente aplicada.
Classificações como as de 1989 da Academia Americana de Periodontologia
(AAP)35 e do Workshop Europeu de Periodontologia6
de 1993, têm sido aceitas e usadas em todo o mundo.
A necessidade de uma revisão na classificação
para doenças periodontais foi enfatizada durante o Workshop Mundial de
Periodontia de 19963. Em 1997 a Academia Americana de Periodontologia respondeu
a esta necessidade e formou um comitê para planejar e organizar um seminário
internacional para revisar o sistema de classificação para doenças
periodontais. Do dia 30 de outubro até 2 de novembro de 1999, o Workshop
Internacional para Classificação de Doenças Periodontais
elaborou a nova classificação. O comitê foi formado pelos
seguintes membros: Presidente- Gary C. Armitage assessorado por Jack G. Caton
Jr., Allan Charles, Robert E. Cohen, Robert J. Genco, Isao Ishikawa, Niklaus
P. Lang e Jan Lindhe.
As falhas das classificações anteriores
foram detalhadas na atual: 1) uma categoria sobrepunha a outra, por exemplo,
a periodontite associada a doenças sistêmicas com periodontite
pré-pubertal; 2) ausência de uma classificação para
doença gengival; 3) ênfase imprópria para idade que determinava
o início e progressão das periodontopatias; 4) critérios
de classificação inadequados e obscuros4.
A proposição deste trabalho é
comparar as classificações das doenças periodontais e descrever
com detalhes a mais atual, utilizando-se para tanto, dos artigos que fundamentaram
as justificativas para as alterações propostas.
Classificação das doenças
periodontais AAP/20004
I - Doenças Gengivais
A. Doenças gengivais induzidas por placa
bacteriana
1. Gengivite associada somente por placa bacteriana
a. Sem outros fatores locais
b. Com fatores locais
2. Doenças gengivais modificadas por
fatores sistêmicos
a. Associada com sistema endócrino
a.1. Puberdade
a.2. Menstruação
a.3. Gravidez: Gengivite / Granuloma Piogênico
a.4. Diabetes Melito
b. Associada com discrasia sangüínea
b.1. Leucemia
b.2. outros
3. Doenças gengivais modificadas por medicações
a. Drogas
a.1. Crescimento gengival (Hiperplasia)
a.2. Gengivite
a.2.1. Anticoncepcionais
a.2.2. Outros
4. Doenças gengivais modificadas por má
nutrição
a. Avitaminose C
b. Outros
B. Lesões Gengivais Não-Induzidas
por Placa Bacteriana
1. Doenças gengivais de origem bacteriana
específica
a. Neisseria gonorrhea
b. Treponema pallidum
c. Estreptococos
d. Outros
2. Doenças gengivais de origem virótica
a. Herpética
a.1. Gengivoestomatite herpética primária
a.2. Herpes bucal recorrente
a.3. Varicela / Herpes Zoster
b. Outros
3. Doenças gengivais de origem fúngica
a. Candida, s.p.
a.1. Candidose gengival generalizada
b. Eritema gengival linear
c. Histoplasmose
d. Outros
4. Lesão gengival de origem genética
a. Fibromatose gengival hereditária
b. Outros
5. Manifestação gengival de condições
sistêmicas
a. Alterações muco-cutâneas:
liquen plano; penfigóide; pênfigo vulgar; eritema multiforme;
lupus eritematoso; indução de drogas; outros.
b. Reações alérgicas
b.1. Materiais restauradores: mercúrio,
níquel; acrílico; outros.
b.2. Relacionadas a: dentifrícios; bochechos, goma de mascar; alimentos/conservantes.
b.3. Outros
6. Lesões traumáticas (Factícia,
Iatrogênica, Acidental)
a. Química
b. Física
c. Térmica
7. Reação de corpo estranho
8. Nenhuma outra especificada
II - Periodontite Crônica
A. Localizada
B. Generalizada
III - Periodontite Agressiva
A. Localizada
B. Generalizada
IV - Periodontite Como Manifestação
de Doenças Sistêmicas
A. Associada com doença hematológica
1. Neutropenia adquirida
2. Leucemia
3. Outros
B. Associada com alterações genéticas
1. Neutropenia familiar e cíclica; Síndrome
de Down; Síndrome de deficiência da adesão de leucócitos;
Síndrome de Papillon-Lefèvre; Síndrome Chediak-Higashi;
Histiocitose; Doença de armazenamento do glicogênio; Agranulocitose
genética infantil; Síndrome de Cohen; Síndrome Ehlers-Danlos
(tipos IV e VIII); Hipofosfatasia; Outros.
C. Nenhuma outra específicada
V - Doenças Periodontais Necrosantes
A. Gengivite Ulcerativa Necrosante (GUN)
B. Periodontite Ulcerativa Necrosante (PUN)
VI - Abscessos do Periodonto
A. Gengival
B. Periodontal
C. Pericoronário
VII - Periodontite Associada com Lesão Endodôntica
A. Lesão combinada periodonto-endodôntica
VIII - Desenvolvimento ou Deformidades e Condições
Adquiridas
A. Fatores localizados, relacionados ao dente,
que modificam ou predispõem doença gengival / Periodontite induzida
por placa bacteriana
1. Fatores anatômicos dentários
2. Restaurações dentárias / aparelhos
3. Fratura radicular
4. Reabsorção cervical da raiz e do cemento
B. Deformidades mucogengivais e condições
ao redor do dente
1. Retração gengival
a. Superfície vestibular
ou lingual
b. Interproximal (papilar)
2. Falta de gengiva queratinizada
3. Vestíbulo raso
4. Freio anormal / posição muscular
5. Crescimento gengival
a. Pseudobolsa; Margem gengival inconsistente;
Exposição gengival excessiva; Hiperplasia gengival
6. Cor anormal
C. Deformidades e condições mucogengivais
em áreas edentulas
1. Deficiência vertical e / ou horizontal
2. Falta de gengiva / tecido queratinizado
3. Aumento gengival / Tecido mole
4. Freio anormal / posição muscular
5. Vestíbulo raso
6. Cor anormal
D. Trauma Oclusal
1. Trauma oclusal primário
2. Trauma oclusal secundário
Observações sobre
as periodontites crônicas e agressivas:
I) Podem ser consideradas localizadas
quando os sítios afetados < 30% e generalizada> 30%.
II) A severidade é determinada
quanto à perda de inserção podendo ser: leve: 1 ou 2
mm, moderada: 3 ou 4mm e severa Ê 5mm.
Tópicos importantes da
classificação atual
Doenças Gengivais
Adição na classificação
das chamadas Doenças Gengivais e lesões induzidas ou não
pela placa bacteriana. Esta condição patológica não
estava presente no Workshop Mundial em Periodontia Clínica de 198935.
O diagnóstico de gengivite geralmente implica
que não ocorreu perda de inserção no periodonto, todavia
indivíduos que tiveram suas periodontites tratadas com sucesso podem
ter clinicamente um diagnóstico de gengivite, sendo necessário
uma demonstração longitudinal de que não houve perda de
inserção adicional14.
Características clínicas da gengivite:
pode ser caracterizada pela presença de quaisquer dos seguintes sinais
clínicos: vermelhidão e edema do tecido gengival, sangramento
provocado, mudanças no contorno e na consistência, presença
de placa e/ou cálculo, e nenhuma comprovação radiográfica
de perda da crista óssea alveolar, a não ser em casos de periodontites
tratadas com sucesso29.
O objetivo terapêutico é estabelecer
saúde gengival pela eliminação dos fatores etiológicos:
placa, cálculo e outros fatores de retenção de placa29.
Uma característica importante da seção
de gengivites induzidas por placa é o reconhecimento de que a expressão
clínica da gengivite pode ser substancialmente modificada por fatores
sistêmicos, como alterações do sistema endócrino;
medicamentos e subnutrição. As gengivites e lesões não-induzidas
por placa incluem uma extensa gama de desordens que afetam a gengiva e são
freqüentemente encontradas na prática clínica4.
Substituição de
Periodontite do adulto por periodontite crônica
No início, o termo "Periodontite do
Adulto" criou um dilema no diagnóstico para clínicos. Dados
epidemiológicos e experiência clínica sugerem que a forma
de periodontite comumente encontrada entre os adultos pode também ser
vista em adolescentes24. Se isto é verdade, como podem os adolescentes
ter um tipo de periodontite dita do adulto? Claramente, a designação
de Periodontite do Adulto idade-dependente criou problemas. A conclusão
foi a de que o termo não específico Periodontite Crônica
caracteriza melhor esta constelação de doenças periodontais
destrutivas. Houve muita discussão quando foram sugeridos os termos Periodontite
de Forma Comum e Periodontite do tipo II. O termo Periodontite Crônica
foi criticado por alguns participantes visto que uma periodontite crônica
pode ser interpretada como não curável por algumas pessoas. Apesar
de todas as considerações sobre o longo curso da doença,
isto não significa que a doença não responda ao tratamento.
Tradicionalmente, esta forma de periodontite é caracterizada por progredir
lentamente11, muitas fontes confirmam esta progressão lenta21,23. Porém,
existem dados indicando que alguns pacientes podem experimentar períodos
curtos de progressão33,16. Então concluíram que a taxa
de progressão não deveria ser usada para excluir as pessoas de
receber o diagnóstico de Periodontite Crônica4.
As principais características destas periodontites
foram definidas como:
a. Presença de irritantes locais compatíveis
com a severidade da doença.
b. Doença periodontal destrutiva mais comum em adultos.
c. Pode acontecer em jovens.
d. Pode afetar ambas as dentições.
e. Normalmente tem taxas de progressão leves a moderadas, mas podem
ter períodos de progressão rápida26,27.
As considerações
sobre o tratamento mostram que o julgamento clínico é uma parte
integrante do processo decidir/executar. Muitos fatores afetam as decisões
para terapêutica apropriada e os resultados esperados. Fatores relacionados
com o paciente incluem saúde sistêmica, idade, colaboração,
preferências terapêuticas, e a habilidade do paciente para controlar
placa. Outros fatores incluem a habilidade do clínico para remover depósitos
subgengivais e necessidades restauradoras e/ou protéticas26,27.
Substituição de
periodontite de início precoce por periodontite agressiva
O termo Periodontite de Estabelecimento Precoce
foi usado pela AAP em 198935 e nas classificações européias
de 19936 como uma designação coletiva para um grupo de diferentes
doenças periodontais destrutivas que afetam pacientes jovens (periodontites
prepubertal, juvenil, e progressiva rápida). Foi assumido logicamente
que estas doenças tinham um início precoce, afetando pessoas jovens.
Infelizmente, a designação "início precoce" implica
em determinação da época do início da periodontopatia.
Além disso, na prática clínica,
na maioria das situações, há incerteza sobre fixar um limite
de idade arbitrariamente para pacientes com periodontites de início precoce.
Por exemplo, como classificar um tipo de doença
periodontal num paciente com 21 anos com o padrão clássico de
Periodontite Juvenil Localizado (PJL), afetando incisivo e primeiro molar? Como
o paciente não é um jovem, a idade do paciente deveria ser ignorada
e a doença classificada como PJL de qualquer maneira? Este tipo de problema
é resultante da variável idade-dependente da classificação
de 1989. Um problema semelhante surge quando a classificação 1989
é aplicada a um paciente de 21 anos com destruição periodontal
generalizada. Tal paciente tem "Periodontite de Progressão Rápida"
(PPR) ou "Periodontite Juvenil Generalizada" (PJG)? A conclusão
é que nenhuma designação é aceitável. O diagnóstico
de PPR pode não ser apropriado quando a taxa de progressão não
é conhecida, e a designação de PJG é inaceitável
porque o paciente não é mais um jovem. Por causa destes problemas,
ficou decidido que seria conveniente descartar da classificação
as terminologias idade-dependente e as que exigiam conhecimento das taxas de
progressão. Conseqüentemente, formas altamente destrutivas de periodontite
antigamente consideradas como "Periodontite de início precoce"
foram renomeadas como "Periodontite Agressiva". Em geral, pacientes
que clinicamente eram definidos como PJL e PJG agora passam a ser determinados
como portadores de "Periodontite Agressiva Localizada" e "Periodontite
Agressiva generalizada" respectivamente. Algumas características
para distinguir a forma localizada da generalizada neste grupo de doenças
periodontais foram estabelecidas. Na nomenclatura antiga, os pacientes com periodontite
juvenil eram classificados como PJL ou PJG, seria impróprio apenas transferir
as informações do sistema de classificação antigo
para o novo. Por exemplo, alguns pacientes classificados como PJG na literatura
antiga, na atual podem se enquadrar em Periodontite Crônica Generalizada
ou Periodontite Agressiva Generalizada, dependendo de uma variedade de características
primárias e secundárias4.
A Periodontite Progressiva Rápida (PPR)
teve sua designação descartada. Pacientes que eram classificados
como tendo PPR, dependendo de uma variedade de outros critérios clínicos,
são classificados nas categorias de Periodontite Crônica ou Periodontite
Agressiva. Deve ser enfatizado que os pacientes com formas de periodontites
progressivas rápidas existem, porém não representam um
grupo de homogêneo4.
A classificação de 1989 continha
a categoria "Periodontite Prepubertal" que tinha as formas localizadas
(PPL) e generalizadas (PPG). A categoria originalmente acomodava situações
raras nas quais as crianças com dentes decíduos tiveram destruição
periodontal severa. É conhecido agora que a maioria dos pacientes diagnosticados
como portadores de PPG tinham uma variedade de condições sistêmicas
interferindo com resistência a infecções bacterianas. Tais
condições incluem deficiência de aderência de leucócitos38,22,
imunodeficiência primária congênita7, hipofosfatasia30, defeitos
crônicos dos neutrófilos15,19 ou neutropenia cíclica31.
Na classificação nova estes pacientes são classificados
como portadores de "Periodontite como Manifestação de Doenças
Sistêmicas"4.
Os participantes concordaram ainda, que crianças
na pré-puberdade que têm destruição periodontal sem
qualquer modificação nas condições sistêmicas,
dependendo de uma variedade de características secundárias, são
agora classificados como portadores de "Periodontite Crônica"
ou "Periodontite Agressiva". A idéia de que a periodontite
tem seu início na infância é apoiada por dados epidemiológicos
retrospectivos que sugerem que radiografias localizadas mostram perda óssea
na dentição primária em algumas crianças9,32,34.
Além disso, periodontite generalizada foi detectada em crianças
jovens sem qualquer manifestação de doenças sistêmicas10.
O conceito que periodontite se desenvolve em uma tenra idade é fortalecido
através de muitos dados de estudos epidemiológicos demonstrando
que perda de inserção periodontal pode ser encontrada em dentes
permanentes de adolescentes1,2,3,8,12,13,17,18,20,36,37.
Normalmente afeta pessoas com menos de 30 anos
de idade, porém pode afetar pacientes mais idosos. É considerada
generalizada quando a perda de inserção interproximal afeta pelo
menos 3 dentes permanentes além dos primeiros molares e incisivos. A
perda de inserção acontece em períodos episódicos
de destruição pronunciada. A doença é freqüentemente
associada com os periodontopatógenos Actinobacillus actinomycetemcomitans
e Porphyromonas gingivalis, além de anormalidades funcionais dos neutrófilos
e resposta deficiente de anticorpos aos agentes agressores25.
As principais características destas periodontites
foram definidas como:
a. Tem formas localizadas e generalizadas.
b. Na maioria dos casos, o paciente tem um aspecto de saúde periodontal.
c. A quantidade de deposição microbiana é incompatível
com a severidade da destruição periodontal.
d. Tende a ter uma tendência familiar.
e. Progressão rápida25.
Além do tratamento típico para periodontite
crônica, deveria ser considerado para pacientes que têm periodontite
agressiva o seguinte:
a. Uma avaliação médica
geral pode determinar se doença sistêmica está presente
nas crianças e adultos jovens que exibem periodontite severa, particularmente
se a periodontite agressiva não responder à terapêutica
clássica.
b. Somente procedimentos periodontais básicos freqüentemente são
ineficientes no tratamento de periodontites agressivas. Porém, nas
fases iniciais da doença, o tratamento pode ser realizado com tratamento
básico conjugado com terapêutica antimicrobiana ou sem a fase
cirúrgica. Testes de identificação microbiana e sensibilidade
antibiótica podem ser considerados. Em pacientes muito jovens, o uso
de tetraciclinas pode ser contra-indicado devido à possibilidade de
manchar de dentes. Agentes antimicrobianos alternativos ou dispositivos de
liberação lenta podem ser considerados.
c. O resultado a longo prazo pode depender
da colaboração do paciente e manutenção periodontal
em intervalos apropriados, que de forma geral deve ser considerado como ideal
de 3 em 3 meses. Se dentes decíduos forem afetados, a erupção
de dentes permanentes deve ser monitorada para se detectar possível
perda de inserção.
d. Pela potencial natureza familiar das doenças agressivas, avaliação
e aconselhamento dos familiares deve ser feito25.
Eliminação de periodontite refratária
Na classificação de 198935, uma categoria
à parte foi denominada de Periodontite Refratária. Este grupo
heterogêneo de doenças periodontais se refere a situações
em que há uma progressão contínua da periodontite, apesar
de uma excelente colaboração do paciente e a realização
de uma terapêutica periodontal que teria sucesso na maioria dos pacientes
portadores da então denominada Periodontite do Adulto, hoje Periodontite
Crônica. Devido à diversidade de condições clínicas
e tratamentos nos quais a terapêutica periodontal não impede a
progressão da periodontite, os participantes do seminário foram
da opinião que "Periodontite Refratária" não
é uma única entidade de doença. Realmente, foi considerado
possível que uma pequena porcentagem de casos de todas as formas de periodontite
possam não responder ao tratamento. Então concluíram que,
em lugar de uma única categoria, a designação refratária
poderia ser aplicada a todas as formas de periodontites classificadas no sistema
novo (por exemplo, periodontite crônica refratária, periodontite
agressiva refratária, etc)4.
Periodontite como manifestação
de doenças sistêmicas
Na classificação de 198935, uma das
categorias era "Periodontite Associada a Doenças Sistêmicas".
No geral, esta categoria foi mantida na classificação nova, pois
está claro que a doença periodontal destrutiva pode ser uma manifestação
de certas doenças sistêmicas. Foi consenso a elaboração
de uma lista de doenças sistêmicas caracterizando uma periodontite
a elas relacionadas. É interessante notar que o diabetes melito não
consta desta lista. Na visão coletiva dos participantes, diabetes pode
ser um modificador significativo de todas as formas de periodontite, mas há
dados insuficientes para concluir que haja um diabetes melito específico
associado à forma de periodontite. Por exemplo, a presença de
diabetes melito não-controlado pode alterar o curso clínico e
expressão de formas crônicas e agressivas de periodontite.
Semelhantemente, a classificação
nova não contém uma categoria de doença separada para os
efeitos do fumo na periodontite. O fumo foi considerado um modificador significante
das múltiplas formas de periodontite4.
Uma das aparentes contradições
no novo sistema é a inclusão dentro das "Doenças Gengivais
Induzidas por Placa Bacteriana" (lista de classificação de
doenças gengivais que podem ser modificadas por fatores sistêmicos)
da "Gengivite associada a diabetes melito". Como se pode justificar
a inclusão de uma categoria de gengivite associada a diabetes melito
e excluir uma categoria paralela de periodontite? A razão para esta decisão
é que a gengivite induzida por placa foi considerada uma entidade única
pelos participantes do seminário. Este não é o caso para
periodontites onde existem formas clínicas claramente diferentes. Teria
sido possível incluir na classificação, nova subcategoria
adicional como "periodontite crônica associada a diabetes melito"
e "periodontite agressiva associada a diabetes melito". Contudo, o
grupo decidiu que isto não seria necessário e nem tampouco justificável4.
Vários fatores sistêmicos
foram documentados como sendo capazes de afetar o periodonto e/ou tratamento
da doença periodontal. Componentes etiológicos sistêmicos
podem estar presentes em pacientes que exibem inflamação ou destruição
periodontal desproporcionais aos irritantes locais. O clínico deve estar
atento às condições sistêmicas e/ou drogas que podem
ser fatores contribuintes para doenças periodontais, e dos passos necessários
para avaliação destes fatores. A terapêutica periodontal
pode ser modificada com base na condição médica atual dos
pacientes. Periodontopatógenos podem ser origem de infecções
em outros locais do corpo. Desta maneira estas infecções podem
afetar a saúde sistêmica28.
Avaliação do paciente
com esta periodontite deve conter:
1. Exame periodontal completo.
2. Devem ser identificadas as condições que são sugestivas
de desordens sistêmicas, tais como:
a. inaptidões físicas;
b. sinais ou sintomas de xerostomia, lesões mucocutâneas, crescimento
gengival,
c. hemorragia gengival excessiva, outros indicadores não detectados
ou doença sistêmica mal controladas;
d. uso terapêutico de droga;
e. sinais ou sintomas do hábito de fumar, dependência química
e outros hábitos presentes no grupo de viciados;
f. história de doenças recentes ou crônicas;
g. evidência de fatores psicosociais/emocionais;
h. história familiar de doença sistêmica.
3. Solicitação de
testes laboratoriais apropriados.
4. Indicação para consulta com outros profissionais de saúde
quando justificado28.
Substituição de
periodontite ulcerativa necrosante por doenças periodontais necrosantes
Os participantes reconheceram que
Gengivite Ulcerativa Necrosante (GUN) e Periodontite Ulcerativa Necrosante (PUN)
são clinicamente condições identificáveis. Porém,
o grupo estava menos certo sobre a relação entre GUN e PUN. São
condições clínicas partes de um único processo de
doença ou são doenças verdadeiramente separadas? Os dados
são insuficientes para solucionarem este assunto. O grupo decidiu então
colocar ambas as condições clínicas em uma única
categoria de "Doenças Periodontais Necrosantes". Se futuros
estudos mostrarem que GUN e PUN são doenças fundamentalmente diferentes,
podem então ser separadas em revisões subseqüentes4.
Um dos problemas potenciais com
inclusão de "Doenças Periodontais Necrosantes" como
uma categoria separada é que GUN e PUN podem ser manifestações
ligadas a problemas sistêmicos como infecção por HIV. Se
isto for verdade, então poderia ser mais apropriado classificar estas
condições como manifestações de doenças sistêmicas.
A razão para que isto não fosse concluído é que
existem muitos outros fatores, que não doenças sistêmicas
que parecem predispor ao desenvolvimento de GUN ou PUN como estresse e tabagismo.
Então a compreensão sobre estas condições clínicas
está longe de ser completa; a conclusão é que por enquanto
ficam inclusas em uma única e separada categoria na nova classificação4.
Abscessos do periodonto
A classificação de
198935 não incluiu uma seção de abscessos do periodonto.
Isto foi resolvido com a adição de uma classificação
simples, principalmente baseado no local (gengival, periodontal, pericoronário)
destas lesões comumente encontradas. Poderia ser discutido que abscessos
do periodonto são parte do curso clínico de muitas formas de periodontite
e a formação de uma categoria de doença separada não
seria justificado. Contudo, na visão dos participantes do seminário,
desde que abscessos periodontais apresentam diagnóstico e modalidade
de tratamento distinta eles merecem ser classificados a parte das outras doenças
periodontais4.
Conclusão
É importante uma classificação
para doenças semelhantes que ocorram sobre uma mesma estrutura. Ela permite
a elaboração das condutas terapêuticas em caráter
universal, além de uma linguagem padronizada. Ocorre que a dinâmica
da constante evolução do entendimento da etiopatogenia, leva à
necessidade também de modificações nas classificações.
É por isso que muito provavelmente em um determinado momento a comunidade
científica estará novamente exigindo reformulação
nesta classificação hoje vigente. É a evolução
da Ciência!
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Data de Publicação do Artigo:31 de Julho de 2002
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