A saúde oral do idoso Elson Fontes Cormack ( elson@ufrj.br ) - Doutor e Mestre em Odontologia Social pela UFF
- Prof. Chefe do Depto. Odontologia Social e Preventiva da FO-UFRJ
- Especialista em Geriatria e Gerontologia pela Faculdade de Medicina-UFF
Esse trabalho quer apresentar uma visão abrangente sobre a saúde oral das pessoas idosas, discorrendo sobre os aspectos fisiológicos do envelhecimento dos componentes da cavidade oral e apresentando também os principais processos patológicos que afetam a saúde oral dos indivíduos da terceira idade, ainda que considerando as dificuldades em se delimitar esses dois processos.
Através de uma revisão da literatura o assunto se desenvolve, e são apresentados alguns dados relativos ao crescimento da população idosa e a mudança do perfil epidemiológico do "novo idoso" que surge, com diferentes necessidades orais em relação à geração anterior, tais como a diminuição do edentulismo, o aumento das cáries das superfícies radiculares e o incremento da doença periodontal.
Concluiu-se que com o aumento da população idosa, teremos nos próximos anos uma demanda por uma maior e mais diversificada atenção odontológica para esse grupo em particular. A profissão odontológica - incluindo associações de classe, o meio universitário e os diversos prestadores de serviço - devem estar cientes e alertas para essa questão, de forma a ampliar o estudo e a pesquisa nessa área.
A Saúde Oral do Idoso

Dr. Elson Fontes Cormack
"Não somos velhos enquanto
buscamos"
Jean Rostand (1894 -1977)
Caderno de um Biologista
INTRODUÇÃO
O Brasil, à
semelhança dos diversos países do mundo, está envelhecendo
rapidamente. A população idosa, considerada como aqueles
indivíduos com mais de 60 anos, compõe hoje o segmento
populacional que mais cresce em termos proporcionais. Se
considerarmos do início dos anos 80 até o final do século,
observaremos um crescimento da população idosa em mais de 100%,
e até o ano 2025 seremos a sexta maior população idosa do
mundo em números absolutos, com mais de 30 milhões de pessoas
nesta faixa, representando quase 15% da população total.
O envelhecimento
tem sido definido das mais diferentes formas por vários autores.
Alguns visualizam o envelhecimento como um processo biológico,
outros mais como um processo patológico ou como um processo
sócio-econômico ou psicossocial. Se analisarmos em termos de
conseqüências cronológicas ou psicológicas do envelhecimento
encontraremos uma grande variação entre indivíduos, que afetam
a definição do envelhecimento. Fica óbvio que a idade é de
qualquer modo um limite arbitrário, uma vez que o envelhecimento
é um processo contínuo, não se iniciando em nenhuma idade ou
momento particular.
Um dos principais
critérios utilizados para se identificar um idoso bem sucedido
é pela manutenção por toda sua vida de sua dentição natural,
saudável e funcional, incluindo todos os aspectos sociais e
benefícios biológicos, tais como a estética, o conforto, a
habilidade para mastigar, sentir sabor e falar (ETTINGER -1987)
(KIYAK & MULLIGAN - 1987).
Realmente, pode-se
verificar que, diretamente relacionados à odontologia, poucos
são os estudos direcionados especificamente aos problemas bucais
dos indivíduos idosos. A produção científica nacional nesse
campo é bem escassa, porém nos EUA, Canadá, e em alguns
países Europeus, a cada ano surgem novos trabalhos relativos a
essa área de conhecimento.
Geralmente as
necessidades de tratamento dos idosos estão relacionadas ao
edentulismo, à falta de elementos dentários, à cárie dental,
abrasões e à doença periodontal (FEIJÓ in MENEZES e cols. -
1993). A maior parte das incidências de neoplasias na cavidade
bucal também incidem em maior prevalência nesse grupo (FRANKS
& HEDEGARD - 1977).
Nesse trabalho
procuraremos apresentar alguns dos aspectos relativos aos
principais problemas que afetam a saúde bucal na terceira idade,
subdividindo o tema em duas partes. Na primeira parte, logo a
seguir, temos a fisiologia do envelhecimento oral, isto é, as
transformações fisiológicas e anatômicas por que passam as
estruturas orais com a idade. Na segunda parte abordaremos as
principais patologias orais encontradas na terceira idade.
Nas duas últimas
décadas alguns estudos relacionados com adultos idosos têm se
fixado nas questões relacionadas à saliva ( BOWEN & TABAK -
1995), por se acreditar cada vez mais que ela seja indispensável
à integridade dos dentes e dos tecidos bucais, e que as
alterações no fluxo salivar, em sua composição ou em ambos,
nos adultos de meia-idade e idosos, pode ter um papel relevante
na maior suscetibilidade à cárie dental, assim como em outras
doenças ou distúrbios bucais (LINDLE - 1992). Acrescente-se o
fato de que centenas de drogas têm potencial para afetar a
função da glândula salivar, e que o uso de medicamentos pelos
idosos é consideravelmente maior do que o da população mais
jovem, pode-se imaginar a relevância desse problema.
HISTÓRICO
Os perfis
epidemiológicos atuais apontam para uma dramática alteração
nos dados relativos aos pacientes idosos, e nos EUA verificou-se
que no período de 1971 a 1985 o edentulismo na população de
18-64 anos diminuiu de 7,3 para 3,7 milhões de pessoas (BROWN -
1994) Esses dados antecipam que milhões de idosos estarão
mantendo os seus dentes por toda a sua vida.
Existe um
preconceito largamente arraigado na sociedade de que o idoso não
utilizaria com a mesma intensidade de um indivíduo mais jovem,
os serviços profissionais dos cirurgiões-dentistas. Um estudo
realizado junto a 747 dentistas de 4 cidades americanas, baseado
em 11909 pacientes, verificou que o estereótipo da baixa procura
pelos dentistas por parte dos idosos é incorreto. 85% dos idosos
entrevistados em Boston -EUA - haviam visitado o dentista nos
últimos 12 meses (PAPAS e cols - 1992). Esse grupo não apenas
responde por uma quantidade substancial das consultas
odontológicas, como também deverá ser o que mais crescerá
durante os anos 90 (MESKINS e cols - 1990).
Estudos correlatos
e similares demonstram que a diminuição da doença periodontal
na população americana resultará em uma rápida e profunda
mudança na saúde oral de toda a população. (DIANGELIS -
1994). Antes de 1983 o percentual de indivíduos com mais de 65
anos atendidos pelos dentistas na Flórida, por exemplo, era
significativamente menor que qualquer outro grupo etário. Entre
1983 e 1986 porém, a discrepância desapareceu, com um aumento
de 40% de consultas nesse grupo, que agora se posiciona como um
importante consumidor dos serviços dentais. Apesar de
representarem 17,6% da população, os idosos com mais de 65 anos
são responsáveis por 26% das consultas odontológicas (MESKIN -
1992).
As conseqüências
desta mudanças deverão provocar um tremendo impacto. O sistema
de saúde não se encontra preparado para enfrentar essa nova
realidade, não apenas pela falta de infra-estrutura para atender
a demanda, como também pela falta de preparo da maioria dos
profissionais de saúde para dar respostas adequadas aos
problemas trazidos pelos idosos. Uma deficiência que encontra
suas origens no ensino profissional, que não fornece à grande
parte dos profissionais conhecimentos específicos de geriatria e
gerontologia. Um recente trabalho realizado junto a 10
universidades Canadenses, buscando identificar e mensurar as
atividades educacionais relacionadas à área geriátrica dentro
dos cursos de odontologia, concluiu que em todas as 10 escolas do
país muito pouco tem sido feito ou planejado nessa área.
(VINCENT e cols - 1992).
A recomendação
da Federação Dentária Internacional - FDI - é que o estudo e
a pesquisa das questões gerontológicas sejam aplicados nos
cursos de graduação e pós-graduação em odontologia.
O Colégio Europeu
de Gerodontologia, criado em 1990 em Amsterdã, pretende criar um
fórum europeu em torno das questões da terceira idade, buscando
a cooperação internacional, promovendo a aproximação
multidisciplinária e servido como referência às questões
gerontológicas na odontologia para todo o continente europeu
(KALK e cols - 1992).
Fica óbvio, pelo
exposto anteriormente, a dificuldade em se delimitar, em vários
casos, o patológico do fisiológico, ou o cronológico do
psicossocial. Desse modo, ainda que todas as afecções bucais
possam estar de alguma forma entrelaçadas, buscaremos dividir e
apresentar este tema, na esperança de tornar o texto mais
didático e compreensível, cientes de que praticamente todos os
processos descritos a seguir guardam uma estreita relação entre
si.
O nosso objetivo
é buscar uma interação das questões relativas à odontologia
ao contexto dos estudos geriátricos e gerontológicos, onde o
processo do envelhecimento se relacione com de forme estreita e
positiva com a manutenção da saúde oral.
FISIOLOGIA DO ENVELHECIMENTO ORAL
Assim como todo o
organismo, as estruturas orais sofrem ação do envelhecimento e
os tecidos da cavidade oral refletem as alterações da idade.
Os dentes
diferem-se dos demais componentes calcificados do esqueleto por
sua interação com o meio externo e pela ausência de
intercâmbio químico ativo, que constitui parte da fisiologia
básica do osso. Várias são as adaptações fisiológicas que
se processam durante o ciclo da dentição normal, tais como:
- o desvio
mesial dos dentes provocado pelas forças de oclusão;
- as
alterações de côr com a idade, tornando os dentes mais
escuros, com tonalidades de amarelo, castanho e cinza;
- um certo
grau de atrição provocado pela mastigação ou por hábitos
viciosos, tais como o bruxismo;
-
mineralização dos canalículos dentinários por
calcificação progressiva, com conseqüente redução de
permeabilidade e aumento no limiar de sensibilidade à dor
nos dentes de pessoas idosas;
- redução da
câmara pulpar, devido à contínua deposição de dentina
nas paredes internas da câmara durante toda a vida de um
dente normal.
Esta dentina
depositada continuamente pela polpa dental reduz o tamanho da
câmara pulpar - é conhecida como dentina secundária normal -
se forma lentamente e se distribui sobre as paredes internas da
câmara pulpar, tanto da coroa quanto da raiz, variando
entretanto conforme a localização do dente. Desse modo o
elemento dentário pode, conforme a idade, ter quase que
totalmente obliterados os seus canais radiculares, apresentando
uma situação caracteristicamente denominada por alguns autores
como "canais atresiados".
Os tecidos de
suporte, conhecidos como tecidos periodontais, sofrem uma
descrição clássica de retração da superfície dentária. A
estrutura do tecido gengival clinicamente saudável não
apresenta alterações de epitélio relacionadas com a idade,
entretanto a submucosa revela uma redução na celularidade, com
aumento na textura do tecido fibroso.
A mucosa oral
reflete, com o tempo, numerosos processos de envelhecimento. Nas
regiões onde há ceratinização normal do epitélio,
encontramos um espessamento com a senescência, associado a uma
redução na espessura da camada basal. Nas áreas onde não há
ceratose, o epitélio senil adelgaçado torna-se mais vulnerável
aos traumas. Associada à redução de espessura, a densidade
celular é mais elevada na mucosa de pacientes idosos, sugerindo
uma desidratação tecidual progressiva, por perda de água
intracelular.
Na língua, com a
idade, costumam aparecer certas alterações nas estruturas
básicas e as alterações na superfície por perda das papilas
são facilmente identificadas. É comum verificar-se a atrofia
das papilas filiformes do dorso da língua, conferindo um aspecto
liso e acetinado a sua superfície, e a atrofia de dois terços
das papilas circunvaladas na velhice, podendo ocorrer ainda a
fissuração da língua, particularmente após os 60 anos,
associada ao desenvolvimento de varicosidade nodular na
superfície ventral, afetando o sistema nervoso superficial.
Essas alterações provocam uma diminuição no sentido do
paladar, com uma conseqüente perda do apetite, e que pode
resultar em problemas nutricionais.
A perda de apetite
em idosos tem sido geralmente relacionada à ausência de
elementos dentários e ao uso de próteses totais (CARLSSON -
1994). De fato se observa que indivíduos portadores de próteses
totais têm somente 1/6 da eficiência da mordida de pessoas com
dentes naturais (KAPUR & SOMAN - 1964). Deste modo, pessoas
com próteses totais tendem a consumir alimentos macios,
facilmente mastigáveis, pobres em fibras e, geralmente, com
baixa densidade nutricional (GEISSLER & BATES - 1984).
Entretanto, além dos fatores bucais, que são a causa primária
das deficiências nutricionais em idosos, muitos outros fatores
adversos afetam a seleção dietética desses indivíduos, tais
como fatores psicológicos, farmacológicos e ainda desordens
gastrointestinais (LAURIN & cols. - 1992).
Nas duas últimas
décadas cada vez mais se percebeu a importância da saliva na
manutenção da integridade dos dentes e dos tecidos bucais
(MANDEL - 1989), e que uma função alterada das glândulas
salivares pode ter conseqüências adversas para a saúde bucal.
Nas glândulas salivares há evidências da redução do volume e
concentração de alguns constituintes salivares com a idade. A
redução do fluxo salivar e conseqüente lubrificação dos
tecidos orais afetam a mobilidade da língua, dificultando a
deglutição dos alimentos. Existem evidências de redução de
até 75% da atividade enzimática da saliva em pessoas com mais
de 60 anos. A viscosidade da saliva também é significativamente
reduzida entre os idosos. Entretanto, os valores do pH da saliva
tamponada apresentam-se, entre idosos que usam dentadura e
pessoas jovens ou idosos com dentes naturais, com uma capacidade
tampão maior para o primeiro grupo. A redução do volume
salivar e de seus constituintes está associada com a atrofia que
se estabelece com a idade, envolvendo não só as células
secretoras como também os ductos, sendo a fibrose das estruturas
glandulares uma alteração senil bastante comum.
Os idosos
constituem o maior grupo de consumidores de medicamentos
"per capita" em todo o mundo, e somente nos EUA eles
consomem 25% da produção anual de medicamentos (TOMASELLI -
1992). Os medicamentos freqüentemente mais consumidos pelos
pacientes geriátricos são os agentes cardiovasculares,
analgésicos, sedativos e tranqüilizantes (GRYMONPRE & GALAN
- 1991). A maior parte dessas drogas são associadas a efeitos de
inibição do fluxo salivar, resultando num potencial aumento da
susceptibilidade à cárie dental.
De fato muitas
medicações têm o poder de afetar a função da glândula
salivar e de exacerbar o ressecamento bucal (LEWIS & cols -
1993). O uso regular de analgésicos, antiarrítmicos,
anti-hipertensivos e diuréticos aumentam substancialmente com a
idade, enquanto o uso de anti-depressivos e anti-histamínicos
permanece constante. Segundo alguns trabalhos, o consumo médio
de medicamentos por idosos é de cerca de 1,7 tipos diferentes de
medicação por pessoa, e geralmente o fluxo salivar diminui em
relação direta com o aumento no número de medicações com
efeitos potencialmente hipossalivatórios (LEVY & cols -
1988).
PRINCIPAIS PATOLOGIAS ORAIS DOS
IDOSOS
Edentulismo
Geralmente a
prevalência do edentulismo pode ser considerada um índice
grosseiro, porém instrutivo, da saúde oral de um determinado
segmento da população em particular, como é o caso da
população idosa. As duas principais causas de perda dos
elementos dentários são a cárie e a doença periodontal.
A prevalência do
edentulismo difere substancialmente na maioria dos países do
mundo. Alguns dos índices mais altos são encontrados no Reino
Unido e na Nova Zelândia, e os mais baixos nos EUA. Na Suécia
49% dos idosos de 55-64 anos não possuem mais nenhum dente,
subindo para 65% no grupo de 65-74 anos. Em vários países a
prevalência do edentulismo é maior em mulheres do que entre os
homens (MERSEL & cols - 1986).
Apesar da direta
relação entre idade e edentulismo, o número de idosos que tem
preservado sua dentição natural tem crescido consideravelmente.
Na Suécia 17,2% dos indivíduos de 55-64 anos possuem todos os
dentes e nos EUA 18,8% dos idosos com mais de 60 anos ainda
conservam pelo menos 20 dentes em suas arcadas dentárias.
De acordo com os
resultados do Questionário Nacional de Saúde Oral dos
Trabalhadores Adultos e Sêniors Americanos (MARCUS & cols -
1994), o número médio de dentes remanescentes pode variar,
consideravelmente, nos indivíduos idosos, segundo alguns fatores
tais como nível educacional, salário e nível
sócio-econômico. Nesse trabalho fica patente que a perda de
elementos dentários é uma questão que deve ser percebida pelo
seu componente social. Os indivíduos com mais de 65 anos que
possuíam os mais baixos índices de escolaridade e menores
proventos também apresentavam os mais altos índices de edentulismo.
Outros estudos
demonstram ainda que os idosos institucionalizados possuem em
média menos dentes naturais do que de idosos que vivem
independentes (KITAMURA & cols -1986).
Cáries em
superfícies radiculares
Em contraste com
as populações mais jovens, a prevalência de cáries em
superfícies radiculares nos idosos apresenta altos índices. O
percentual de idosos com dentes naturais com uma ou mais cáries
ou restauração em superfície radicular varia, segundo vários
trabalhos, entre 45-87%. Na Holanda, por exemplo, esse quadro
corresponde a 56% das pessoas de 55-64 anos e a 62% dos
indivíduos entre 62-74 anos, e no Canadá encontramos 56,8% dos
indivíduos idosos com esse problema, ao ponto de o número de
superfícies radiculares cariadas ser ao redor de 1,3 por pessoa
(LOCKER - 1989). Nos EUA estudos diversos trabalhos encontraram
ao redor de 70 a 83% dos adultos de 55-95 anos com cáries
radiculares (WALLACE & cols - 1988) (BANTING & cols -
1980).
Reforçando a tese
de que a saúde bucal é um problema social, na Alemanha
encontramos um estudo demonstrando que o número de cavidades
cariosas era 10 vezes maior em idosos institucionalizados de
menor nível sócio-econômico do que em pessoas não
institucionalizadas da mesma idade (STRUBING, W. & DEPPING,
M. - 1992). Nos EUA encontramos um percentual de 20-50% de
adultos saudáveis com cáries radiculares, enquanto que entre
idosos institucionalizados ou hospitalizados esse percentual
subiu para além de 90% (Galan & Linch - 1994). A despeito
das variações individuais, uma pessoa com menos de 30 anos tem,
em média, uma em cada nove superfícies radiculares como sendo
de risco à cárie, enquanto um indivíduo com mais de 60 anos
tem duas superfícies em cada três.
As estratégias de
prevenção dos problemas das cáries nas superfícies
radiculares passam principalmente pela avaliação clínica do
risco de cárie do paciente. A base de um efetivo programa de
prevenção dessas afecções deve necessariamente incluir:
- Eliminação
dos substratos cariogênicos da dieta e implementação
dos cuidados de higienização bucal;
- Eliminação
dos microorganismos cariogênicos pela aplicação de
agentes terapêuticos antimicrobianos;
- Indução da
remineralização de superfícies descalcificadas de
dentina pela aplicação de substâncias fluoretadas que
diminuam a desmineralização e induzam a remineralização;
- Proteção de
partes específicas das superfícies radiculares de maior
risco, através de materiais restaurativos.
A manutenção da
saúde dos dentes depende fundamentalmente de dois fatores: a
motivação e cooperação do paciente e sua habilidade para
escovar criteriosamente os seus dentes.
A crescente perda
de habilidades manuais por parte dos idosos tem sido examinada em
alguns trabalhos, e se avalia através de testes de observação
direta, tal como o Teste de Performance de Higiene Oral - TPOH -
que serve para estabelecer o nível de habilidade e/ou
inabilidade individual, a fim de se prover o tipo de assistência
necessária para os cuidados com a saúde bucal em casa (DOHERTY
& cols - 1994).
Essas metodologias
de avaliação da capacidade de auto-cuidado do idoso são
fundamentais para que se possam estabelecer parâmetros seguros
de risco às afecções orais por parte desses pacientes, e, em
casos de comprovada inabilidade, os cuidadores são os
indivíduos que deverão ser orientados no sentido de oferecer ao
idoso os cuidados necessários à manutenção de sua saúde
bucal.
Doença
Periodontal
Vários estudos
demonstram que a doença periodontal aumenta com a idade. Por
outro lado é conhecido que as médias e os padrões de perda
óssea alveolar apresentam variações individuais e também em
diferentes sítios da mesma pessoa (HUGOSON - 1982). Muitos
trabalhos recentes têm demonstrado que 60-100% dos idosos com
dentição natural necessitam de alguma forma de tratamento
periodontal (GORDON & cols - 1988) (MACLNNIS & cols -
1993).
Depois dos 40 anos
a doença periodontal tem sido imputada como a principal causa de
perdas de dentes (CARRANZA - 1984). Em relação a essa
situação os dados epidemiológicos recentes são
contraditórios. Embora alguns estudos tenham constatado que
depois dos 40 anos as extrações por motivos periodontais
ultrapassem ligeiramente as extrações realizadas em função da
cárie dentária (CAHEN & cols - 1985), há outros estudos
sugerindo que, até mesmo nos grupos etários mais idosos da
população, o número de extrações por causas periodontais
ainda seja inferior aos realizados devido à cárie (BAILIT -
1987).
CONCLUSÕES
Estamos entrando
na era dos idosos. A cada mês o número de pessoas com mais de
60 anos no mundo aumenta em torno de 1 milhão de pessoas. Há
dois mil anos atrás a expectativa média de vida era de 20-30
anos, e hoje em dia varia entre 64-70 anos para os homens e 70-78
anos para as mulheres. Estima-se que após o ano 2010, o número
de idosos no mundo aumente tão rapidamente que, em 2035, uma em
cada quatro pessoas no mundo tenha mais de 60 anos.
Conforme citamos
na introdução deste trabalho, um dos principais critérios
utilizados para se identificar um idoso bem sucedido é pela
manutenção por toda sua vida de sua dentição natural,
saudável e funcional, incluindo todos os aspectos sociais e
benefícios biológicos, tais como a estética, o conforto, a
habilidade para mastigar, sentir sabor e falar.
Com o aumento da
população idosa, encontraremos um "novo idoso", com
suas condições físicas, sociais e psíquicas bastante
particulares, que demandará por uma maior e mais diversificada
atenção por parte dos dentistas e de outros profissionais da
saúde. A profissão odontológica - incluindo associações de
classe, o meio universitário e os diversos prestadores de
serviço - deve estar ciente e alerta para esta questão, de
forma a ampliar o estudo e a pesquisa nessa área, contribuindo
para resolver todos os problemas relacionados com a saúde oral
dos pacientes da terceira idade.
A medicina e a
odontologia têm sido distintamente separadas como práticas por
mais de um século. A recente mudança que se observa no perfil
demográfico da população sem dúvida promoverá mudanças no
perfil dessas profissões, que deverão desenvolver mais as
atividades de colaboração interprofissionais e de educação
mútua. Essa nova escola médica e odontológica, baseada em
programas geriátricos para médicos e dentistas, será apenas um
primeiro passo da longa estrada do conhecimento dos cuidados de
saúde para os idosos, que crescerá juntamente com o esperado
aumento da população da terceira idade.
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Como é que é ?
O cara chega à velhice ou ela é que vem vindo ?
Millôr Fernandes (1924 - )
A Bíblia do Caos
Data de Publicação do Artigo:11 de Março de 2002
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